Quinta-feira, Abril 24, 2003 ::: RIO SESC EXPERIMENTAL 2003
Ano passado até dei uma esculachada na programação (vide arquivo do blog de junho de 2002) mas esse ano tenho que dar o braço a torcer: tá bonito. Pelo menos a abertura e o encerramento são imperdíveis.
Na terça-feira que vem tem apresentação do excelente clarinetista Paulo Moura. Tenho um disco de chorinho dele que é um primor, o melhor que já foi ouvi de choro desde Jacob do Bandolim. Numa apresentação há alguns anos no SESC-Pompéia ele fez uma jam com o trompetista judeu Frank London que foi clássica. E o show em dupla com Yamandú Costa um tempo atrás lá no SESC-Copacabana me deixou boquiaberto. Agora só quero ver o que ele está preparando para um programa chamado “Paulo Moura Experimental”.
No encerramento tem Berna Ceppas & Convidados. O músico, que sempre se apresenta no duo Monoaural (ao lado do Kassin) faz sua primeira apresentação solo. Não sei nem o que esperar.
Já a programação do meio traz alguns personagens da cena carioca. Pena que aqui no Rio a música experimental vem sempre acompanhada do indigesto termo “performático”. Convenhamos que não há nada mais constrangedor do que teatro. E as “performances” sempre têm alguma gracinha, alguma besteirada pra chocar e tal. Não dá não. Segue a programação dos shows que acontecerão no SESC-Copacabana (Domingos Ferreira, 160):
Quarta-feira, Abril 23, 2003 ::: ROB BURGER Lost Photograph
Melodias judaicas + duas dezenas de teclados + o melhor baixista do mundo + um baterista muito divertido. Essa é mais ou menos a equação de “Lost Photograph”, primeiro disco solo de Rob Burger, tecladista do Tin Hat Trio.
Para sua estréia Burger convocou o baixista Greg Cohen (Masada) e o baterista Kenny Wollesen (Sex Mob). Mas não é um disco de trio, isto é, foi gravado no pro tools e Burger aproveitou para colocar de dois a quatro teclados em cada música. Aliás, teclado é genérico demais nesse caso. Entre os quase vinte instrumentos listados no encarte estão acordeom, piano, piano de brinquedo, hammond, casiotone e até um rádio de ondas curtas; além de outros que não faço idéia de como são como glockenspiel, marxophone e orchestron, por exemplo.
Mas a ênfase do disco está no acordeom, instrumento original de Burger. E os exóticos, de alguma maneira, acabam não soando tão exóticos assim, já que as melodias parecem ter sido escritas para cada um deles especialmente. Aliás, é bem óbvio isso. Só que o resultado aqui ficou perfeito; até o rádio de ondas curtas soa natural. Apesar de ter bastante acordeom, cada faixa usa uma formação diferente (Cohen usa o arco muitas vezes, enquanto que Wollesen reveza-se entre a bateria, percussão e o vibrafone), o que cria “mundinhos” exclusivos para cada uma.
E Burger, que nem é judeu, lançou seu disco pela série Radical Jewish Music, da gravadora Tzadik. Portanto espere escalas judaicas em todas as faixas, a maioria de sua autoria, misturadas com café francês. Não sei se a escala judaica é tão limitada assim mas deu a impressão de que já tinha ouvido aquelas melodias em outros grupos, principalmente no Masada de John Zorn. Mas é uma boa impressão; o disco é agradável de ouvir, não tem nada muito denso nem nada muito alegre também. Como uma matza de chocolate, é gostoso mas tem aquele sabor amargo no fundo para não te deixar relaxar muito.
Ao vivo, porém, ficou difícil de reproduzir. Hoje, por exemplo, Burger toca no Tonic (NY) ao lado de Doug Wieselman (guitarra, sax e clarinete), Trevor Dunn (baixo) e Mauro Refosco (percussão). Deve ter uma outra sonoridade, queria muito ouvir. Porque “Lost Photograph” é sensacional mas é aquele disco difícil de ouvir nos headphones – como tudo gravado em pro tools atualmente. Isso porque tudo é perfeito demais, não há erros. E tem o problema clássico das gravações de hoje em dia: tudo é captado perfeitamente e depois mexido na mixagem. Às vezes um baixo deve soar lá atrás – e deve ser captado lá atrás também. Fica esquisito captar bonitão e depois diminuir o volume, não soa natural. O disco tem alguns desses vacilos por isso o interesse em ver ao vivo. As melodias de Burger são lindas, assim como a execução dos instrumentos. Mas peca nessa limpeza.
“Storyteller” (Rob Burger)
Greg Cohen – baixo / Kenny Wollesen – bateria e percussão / Rob Burger – demais instrumentos
Terça-feira, Abril 22, 2003 ::: CACHORRO GRANDE
LEELA Nautilus, 19 de abril de 2003
Nunca tinha ido na Nautilus, lugar muito interessante ali no Catete. Entre o centro e a zona sul do Rio, com segurança bacana, varandinha simpática e um apertado mas funcional palco pros shows. Com direito a mezanino e tudo!
A casa não estava lotada mas tinha um público bem numeroso para conferir a estréia da Cachorro Grande no Rio de Janeiro – levando-se em consideração que estávamos no meio do feriado, o evento (London Burning Festival) foi um sucesso.
Já era madrugada quando o Leela começou seu set, bem parecido com o do Ballroom da semana passada, diga-se de passagem. Bianca, Rodrigo, Melvin, Luciano e Fausto – sim, o técnico de áudio, responsável pelo som de cd que ouvimos no Ballroom e novamente no Catete – mostraram a competência de sempre.
Alguns minutos depois a atual maior banda de Porto Alegre pisou num palco carioca pela primeira vez. E foi foda novamente! Os caras têm a mesma intensidade em palcos médios (SESC-Pompéia), grandes (Abril Pro Rock) ou pequenos, como o da Nautilus. Não tem muito o que falar, até o set foi bem parecido com o show da semana passada.
Aliás, é isso aí. Já falei do Leela e do Cachorro nos posts anteriores e os shows foram muito semelhantes. Pelo menos esse serviu para colocar algumas fotos do show de sábado, tiradas pelo Sketch, numa câmera emprestada pelo Rafael Cosme. Valeu!
“Cleptomaníaca de Corações” (Cachorro Grande)
Beto Bruno – voz / Gabriel Azambuja – bateria / Jerônimo Bocudo – baixo / Marcelo Gross – guitarra
Segunda-feira, Abril 21, 2003 ::: NINA SIMONE (1933 – 2003)
Ela entra no palco de bengala e com o auxílio de um ajudante bem vestido. Senta no piano mas logo levanta e reclama da altura do banco. Solta alguns palavrões bem humorados fora do microfone enquanto o roadie é ágil na tentativa de salvar seu emprego. Então finalmente ajeita-se e com um sorriso largo solta o mais grave “hello” que o público do ATL Hall já ouviu.
Assim começou o último show que Nina Simone fez no Brasil, há pouco mais de três anos (no dia 19 de abril de 2000). Após ter mais alguns problemas com a altura do banco o show começou e Nina soltou seu repertório de soul, jazz e blues embalados pelo característico vozeirão.
A apresentação foi sublime mas ela acabou não cantando a música pela qual a conheci e virei fã: “The look of love”, de Burt Bacharach. Segue trechinho dessa belezura de veludo abaixo. E boa noite.
“The look of love” (B. Bacharach / H. David)
Nina Simone – voz / outras informações indisponíveis
Sexta-feira, Abril 18, 2003 ::: CACHORRO GRANDE Centro de Convenções de Pernambuco, 13 de abril de 2003
Essa banda é um dos maiores hypes do underground – os caras devem ter muitos amigos escrevendo por aí. Outro dia vi o clip na MTV (do chapéu) e achei bem sem graça. Daquelas decepções maneiras tipo Butchers Orquestra – esses sim têm milhões de amigos sentados em frente aos computadores. O guitarrista tocava com o Júpiter Maçã, referência melhor não há, mas aquela música era muito bunda mole.
Quando fui pra Porto Alegre ver um show da Graforréia falei com os caras num bar depois do show. Rei na barriga é pouco. Os caras se achando, gritando no bar, levando à sério o rock n’ roll lifestyle – um deles estava ficando com duas garotas no show, rock n’ roll demais pra mim. Até que eles não pareciam só os personagens que seus amigos pintavam nos zines e blogs. Até desconfiei que não eram só os amigos que falavam sobre eles.
Em dezembro estava trabalhando no festival Upload e vi uns pedaços do show deles, inclusive o final. Aquilo foi apoteótico, o sangue escorrendo na cara do vocalista foi antológico. Me remeteu àquela sensação de perigo e supresa que os shows da Gangrena Gasosa tinham – qualquer coisa poderia acontecer a qualquer momento. Deixaram o palco sujo de sangue, suor e vômito. E uma platéia atônita. Aquilo foi foda, quem viu viu.
E quem estava no Abril Pro Rock no domingo passado viu mais uma amostra de como uma banda de rock n’ roll pode surpreender e emocionar em 2003. O que foi aquilo? Na mesma noite se apresentaram Los Hermanos, Siba, Nando Reis, Ira!, Pitty... Mas se apresentaram mesmo? Não lembro. Não dá pra lembrar de muita coisa quando se vê Beto Bruno berrando “lunático, que se foda, sou eu que estou pagando!!”. Não dá pra guardar muito na cabeça depois de uma porrada como “Se vai ter que dar vai ter que dar” com seus sete minutos de improvisos. Cara, isso é muito difícil de funcionar. É muito mole mandar um “agora é a hora da jam, a gente faz uns solos, depois sobe e volta a música e tal”. Mas fazer isso acontecer é pra poucos. Marcelo Gross é um guitarrista filho da puta, o que foi aquele solo? Ah, que banda foda! Mas chega de puxar o saco dos caras que eles já são muito metidos. Quer saber, clique aqui para baixar o show inteiro e ter uma ligeira idéia do que foi. Tem gente que fala que é muita empolgação à toa, que as músicas não estão à altura. Estão sim. Baixa lá e ouve. Se “Lunático” não é um futuro clássico, não sei mais de nada.
Para quem nunca ouvi, não sei quais são as referências para colocar aqui. Não ouço nada parecido com isso. Sei que de madrugada, no hotel, Beto desceu na piscina e colocou uma vitrola tocando Bob Dylan às quatro da manhã. Nunca tinha ouvido Bob Dylan e também não achei que tivesse alguma coisa a ver não. Ah, é rock. E rock bom pra caralho! E se você mora no Rio e viajou no final de semana, vacilou. Se não viajou, chega ali na Nautillus, onde tocam com o Leela amanhã.
Ah! Nessa viagem de Recife perdi minha câmera. Tinha tirado fotos do Autoramas e do Cachorro Grande, que agora estão com algum espertinho que pegou minha bolsa no aeroporto. Por isso segue uma do bar em Porto Alegre porque blog sem foto é chatão.
“Amigo de novo” (Cachorro Grande)
Beto Bruno – voz / Gabriel Azambuja – bateria / Jerônimo Bocudo – baixo / Marcelo Gross – guitarra
Quinta-feira, Abril 17, 2003 ::: AUTORAMAS
LEELA Ballroom, 11 de abril de 2003
Inventaram de fazer uma edição extra do Humaitá Pra Peixe em abril no Ballroom. Não tinha uma idéia pior não? HPP não é sobre shows. É sobre Sérgio Porto cheião na época de férias. De dia, chegar cedão lá pra encontrar o pessoal e não dar muito mole no posto pra não perder o início dos shows – que afinal, era só uma desculpa pra estar lá com todo mundo. Se bem que tenho ótimas lembranças do palco daquela época. A edição de 96 (se não me engano) foi encerrada com um inesquecível show do Little Quail & The Mad Birds. E ficou uma galera de fora, quem entrou tirou onda.
Então não tem porque fazer uma edição no Ballroom (o ballruim, aquela tristeza) e chamar de HPP. Bola fora, Bruno. Aliás, bola na geral porque sexta-feira é um dia tradicionalmente ruim naquela casa.
A escalação estava bonitinha – pena que pouca gente concordou com isso. Leela começou seu set tardão para uma dúzia de gatos pingados. Apesar do cenário horroroso a banda mostrou um profissionalismo poucas vezes visto no underground. Com uma equipe enxuta e competente, os caras deram uma amostra do que vão mostrar nos palcos por aí afora quando lançarem o primeiro disco pela Arsenal Records. Som de primeira (tipo cd, lindão e na pressão), luz bem feita, roadie em cima, banda tranqüilona no palco... Até porque essa foi a centésima apresentação do grupo. Bacana, estão prontos para se exporem ao mercado – já que esse parece ser o objetivo.
Meu receio é a mega exposição que eles têm no underground. No final do show a Bianca até anunciou que eles tocam na semana que vem (na Nautillus, com os geniais Cachorro Grande) e depois dão uma parada. Fazem bem, é bom segurar um pouquinho. Na fase que eles estão, não tem porque ficar tocando toda semana em tudo que é buraco. Tem que dar uma valorizada.
Após breve intervalo veio uma das minhas bandas preferidas, liderada por um dos personagens do primeiro parágrafo. O show demorou pra engrenar: o som deu uma caída incrível, ficou ruim mesmo. Mais tarde Simone apelidaria os técnicos de anta e capivara. Mereceram o tratamento. Mas já estava muito tarde e o público, reduzido para meia dúzia de gatos pingados, deu pouca importância ao problema. Afinal, tinha quase um ano que os Autoramas não tocavam no Rio e todo mundo queria ouvir os hits. E além destes a banda ainda mostrou algumas inéditas muito bacanas. Tem uma demo rolando por aí; tô curioso para ouvir.
Mas por eles não tocarem há muito aqui no Rio, pensei que a casa estaria mais cheia. Só que Ballroom numa chuvosa sexta-feira... Nem com Autoramas!
"Copersucar" (Gabriel Thomaz / Simone do Vale)
Bacalhau - bateria / Gabriel Thomaz - guitarra e voz / Simone do Vale - baixo
Quinta-feira, Abril 03, 2003 ::: WONKAVISION GRAVA PRIMEIRO DISCO
Como muita gente já sabe, o Wonkavision ganhou vinte e cinco mil reais numa promoção da Coca-Cola alguns meses atrás. Ao invés de investir o dinheiro em drogas de qualidade, os caras resolveram torrar tudo na gravação de um disco, que começa no mês que vem.
O quarteto vai se mudar para Belo Horizonte onde fará o álbum no estúdio do John (Pato Fu). Mas antes das gravações a banda apresenta algumas músicas do disco na concorrida festa Loud, no Rio de Janeiro, no dia 12 de abril, junto com Beach Lizards e Canastra.
"Ah! É assim?" (Will)
Grazi - baixo e voz / Kiko - bateria e voz / Manu - teclado e voz / Will - guitarra e voz